Edição 2015

Ângela Ferreira é a vencedora do prémio NOVO BANCO Photo 2015 - principal prémio de arte contemporânea em Portugal de estatuto internacional, que dá a conhecer trabalhos inéditos dos mais consagrados artistas da lusofonia num evento ímpar que atribui ao vencedor o prémio no valor pecuniário de 40.000 euros.

O júri de premiação, com nacionalidade distinta das representadas pelos artistas selecionados, é constituído por Dana Whabira (Londres, Harare), artista e curadora independente; Manthia Diawara (Bamako, Nova Iorque), historiador de arte e professor da New York City University; e Salah Hassan (Cartum, Nova Iorque), historiador de arte e professor na Cornell University.

«O júri tomou uma decisão difícil, mas unânime, após longa deliberação, tendo em conta a qualidade do trabalho de cada um dos artistas apresentado nesta exposição coerente e intensa.
Uma visita à exposição realça os aspetos deste forte e brilhante grupo de artistas. O trabalho de Edson Chagas traz uma nova dimensão ao minimalismo, tal como este é concebido no Ocidente, ao contextualizar os objetos no espaço e no tempo do pós-colonialismo, afastando-se de uma abordagem altamente formalista e estetizada.

As suas fotografias, com diferentes dimensões, apresentam uma ligação subtil conseguida através da linha de horizonte que se move de uma fotografia para a outra, enquanto um filme projetado reflete as fotografias, trazendo um elemento repetitivo de corrida e deslocação contínua de uma figura humana entre uma extremidade e a outra do ecrã, com uma banda sonora que ecoa a vida noturna e as ondas do mar, pontuada por um ritmo semelhante ao batimento de um coração, que dá vida ao horizonte onde, de outro modo, a figura humana é esmagada pelo espaço. A escolha do artista em fotografar o espaço no momento de silêncio, um espaço que, de outro modo, está cheio de movimento e atividade dos flâneurs e dos voyeurs, dos ébrios e dos amantes.

Passando para o trabalho conceptual e altamente ritualizado de Ayrson Heráclito, somos confrontados com uma performance representada numa instalação fotográfica de um conjunto de dípticos na forma de duas formulações em L invertido. De novo, as fotografias ecoam as semelhanças entre dois entrepostos esclavagistas transatlânticos, onde o artista exorcisou uma história impregnada do legado de violência infligido ao corpo negro no contexto do comércio de escravos transatlântico. Os vídeos ressoam entre si ao apresentar um registo ou representando o exorcismo através de um sistema de crenças africano ou da diáspora africana. Heráclito traz-nos um trabalho novo onde a esfera privada é representada como política, e onde a performance ritual é realizada com um sentido de responsabilidade não só para com a história, mas para com uma epistemologia onde o artista agirá como um sujeito e um objeto, com o ritual a misturar-se com o conceptual.

No contexto do trabalho da exposição, o júri foi unânime na atribuição do prémio Novo Banco Photo 2015 a Ângela Ferreira pela sua peça A Tendency to Forget (2015) concebida para a presente exposição, uma instalação multimédia inquisitiva e baseada em investigação que reúne a fotografia, arquitetura, escultura e imagem em movimento, pontuada por imagens de arquivo históricas num trabalho altamente sensibilizado que desafia a nossa perceção do passado e nos confronta com os fantasmas do contexto colonial e pós-colonial. O trabalho recorda-nos o lado mais sombrio da modernidade, à medida que desvela o lado oculto dos arquivos onde a artista joga com a tensão entre o visível e o invisível, entre a presença e a ausência, e com o inquietante. Podemos ver a leitura dos espaços como textos políticos através da revelação da cumplicidade entre a antropologia e o colonialismo, entre o poder e a produção de conhecimento que toma a forma de uma instalação escultórica minimalista que nos move de um modo invertido para minar metaforicamente o arquivo.»

A exposição, patente ao público até 11 de outubro, reúne trabalhos inéditos de Ângela Ferreira (Lisboa), Ayrson Heráclito (Salvador) e Edson Chagas (Luanda). O NOVO BANCO mantém, desta forma, a sua aposta de mecenato cultural na área da fotografia, dando continuidade ao formato, bem como os pressupostos de internacionalização por via da seleção dos artistas, que podem ser de nacionalidade portuguesa, brasileira ou dos Países Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Sobre Ângela Ferreira

“Os edifícios podem ser lidos como textos políticos, e é isso que procuro fazer.” Esta frase de Ângela Ferreira resume, em muitos aspetos, grande parte da sua produção artística, que é efetivamente um questionamento persistente das leituras potenciais dos edifícios que nos rodeiam e das consequências da sua presença ou do seu desaparecimento. Porém, a sua atenção penetrante vai além da superfície de cada estrutura analisada, explorando e revelando as subtilezas dos diversos episódios históricos que deixaram a sua marca nesses edifícios.

O trabalho de Ângela Ferreira questiona, a vários níveis, o significado e a interpretação da arquitetura e do urbanismo modernos, que a artista considera ser um dos aspetos fundamentais da nossa experiência sociopolítica, cultural e económica atual.» – Elvira Dyangani Ose Ângela Ferreira nasceu em 1958 em Maputo, Moçambique.

Concluiu os estudos de artes plásticas na África do Sul. Atualmente vive e trabalha em Lisboa.

Veja em baixo o testemunho de Ãngela Ferreira e aqui os testemunhos dos artistas  Ayrson Heráclito e Edson Chagas.