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SEGURANÇA ONLINE:

Gestão do risco agrícola: desafios e estratégias para o setor

A agricultura é uma atividade marcada pela incerteza. O setor enfrenta desafios cada vez mais complexos: pressões ambientais, alterações climáticas, perda de biodiversidade, escassez de recursos hídricos, gestão do uso de pesticidas, doenças, degradação do solo, custos energéticos e volatilidade dos preços, entre outros.

As explorações agrícolas têm e a missão de produzir alimentos seguros, rastreáveis e acessíveis, aproximando-se do consumidor final, enquanto lidam com margens de rentabilidade cada vez mais apertadas. Para além de produtores, os agricultores são verdadeiros gestores, obrigados a tomar decisões diárias que influenciam a viabilidade das suas explorações. No entanto, muitos continuam vulneráveis a riscos e incertezas que não conseguem avaliar ou gerir eficazmente.

O risco traduz-se na probabilidade de ocorrência de resultados indesejados, como quebras de produtividade ou variações no cash-flow. Quando não é possível conhecer os valores possíveis ou as suas probabilidades, entra-se no domínio da incerteza.

De acordo com orientações da OCDE, os riscos podem ser classificados em três categorias:

  • Riscos comuns: ocorrem com frequência e causam danos relativamente reduzidos;
  • Riscos de mercado: acontecem de forma esporádica, mas podem provocar prejuízos moderados;
  • Riscos catastróficos: são muito raros, porém resultam em impactos graves.

A gestão do risco implica identificar fatores críticos, reduzir a probabilidade da sua ocorrência e mitigar impactos, sendo cada vez mais uma competência essencial na gestão de uma Empresa e ainda mais do setor agrícola. Não se trata de uma abordagem académica, mas sim de uma necessidade prática: identificar os riscos que afetam o negócio, compreender a sua dimensão e antecipar soluções para minimizar impactos. Para isso, é fundamental promover uma cultura de prevenção, melhorar a capacidade de análise e garantir acesso a ferramentas adequadas.

Uma gestão eficaz do risco implica que:

  • Riscos normais sejam tratados diretamente pelos agricultores, recorrendo sobretudo a estratégias aplicadas na própria exploração;
  • Riscos de mercado sejam mitigados através de instrumentos específicos, como contratos, seguros, ferramentas de mercado, organizações de produtores ou outras formas de ação coletiva;
  • Riscos catastróficos sejam geridos pelo Governo, tanto de forma preventiva como após a ocorrência, uma vez que estes não podem ser controlados pelos agricultores nem pelos mecanismos de mercado sem intervenção pública.

Todos os anos, cerca de 20% dos agricultores sofrem quebras de rendimento superiores a 30%, reflexo de uma cadeia de valor desequilibrada: os choques de mercado são transmitidos quase integralmente ao produtor.  

Principais fatores de risco no setor agrícola:

  • Ambientais: dependência de condições climáticas, pragas, doenças e variabilidade biológica das culturas e animais
  • Mercado: volatilidade dos preços, acesso limitado a mercados e exigências de qualidade
  • Financeiros: taxas de juro, estrutura de financiamento e riscos cambiais
  • Institucionais e tecnológicos: alterações na Política Agrícola Comum (PAC) e obsolescência acelerada

Estratégias para mitigar riscos, que passam por uma combinação de medidas privadas e públicas:

  • Privadas: investimento em tecnologia, diversificação de culturas e mercados, dispersão geográfica, contratos de produção, integração vertical, contratação de seguros agrícolas
  • Com apoio público: seguros de colheita e rendimento, fundos mutualistas, contas poupança e incentivos fiscais
  • Exclusivamente públicas: apoios diretos ao rendimento, subsídios ao investimento, ajudas em caso de catástrofe e garantias públicas

Em Portugal, a gestão do risco agrícola envolve estratégias de prevenção, resiliência e sustentabilidade, apoiadas por planeamento contínuo. Entre os instrumentos disponíveis destacam-se:

  • Mapeamento de processos para identificar vulnerabilidades
  • Seguros agrícolas, que cobrem perdas por fenómenos climáticos ou variações de rendimento, etc
  • Fundos mutualistas e contas poupança com incentivos fiscais, que funcionam como reservas financeiras
  • Apoios da Política Agrícola Comum (PAC), que financiam práticas sustentáveis e mecanismos de estabilização

Estas medidas são cruciais para enfrentar um futuro marcado pela incerteza. A agricultura europeia precisa de evoluir para um modelo mais profissional, resiliente e orientado para a gestão de riscos, garantindo não só a sobrevivência das explorações, mas também a segurança alimentar de milhões de cidadãos.

Uma das medidas mais conhecidas e utilizadas para a gestão de risco, sobretudo a título particular são os seguros. No setor agrícola destacam-se as seguintes tipologias se seguros:

  • Seguro de colheitas - destinado a produtores agrícolas oferecendo proteção aos agricultores contra riscos associados às variações climáticas que possam comprometer as suas culturas, garantindo o pagamento de uma indemnização em caso de perdas ou danos. Um seguro desta tipologia permite a estabilidade dos rendimentos e a continuidade sustentável da exploração agrícola.
  • Seguro florestal- destinado a produtores e associações do setor garantindo a reposição do património florestal e a recuperação rápida da capacidade produtiva das áreas afetadas, em caso de incêndio, queda de raio ou explosão.
  • Seguro para a pecuária - destinado a titulares de explorações de bovinos, ovinos, caprinos, suínos e equinos, garantindo proteção contra a eventual morte e/ou furto de animais.
  • Seguro paramétrico - é uma solução personalizada que utiliza um parâmetro independente — normalmente um índice meteorológico — diretamente relacionado com as receitas ou custos do cliente. Desenhado para responder às necessidades específicas do negócio, este seguro baseia-se em indicadores climáticos e pode abranger tanto a produtividade como a qualidade das culturas. O seguro paramétrico protege o segurado de eventos climáticos adversos, sem estar, no entanto, diretamente relacionado à produção propriamente dita. Ao contratar este tipo de seguro agrícola, são estabelecidos em contrato parâmetros específicos, como temperatura ou níveis de precipitação, etc. Se, posteriormente, os valores registados ficarem fora dos limites definidos, considera-se que ocorreu um sinistro, o que dá direito ao pagamento da indemnização.
  • Seguro de preço - uma solução criada para reduzir a exposição às oscilações do mercado. Este seguro permite que o agricultor se concentre na sua atividade, protegido contra a volatilidade dos preços nos mercados onde comercializa a sua produção.
  • Seguro a ativos biólogos – trata-se de uma solução que pretende a proteger o investimento realizado em ativos biológicos (preparação do terreno, plantação, plantas, tutores, aramação, sistema de rega, infraestruturas de suporte).

A gestão do risco agrícola deixou de ser uma opção para se tornar uma necessidade estratégica num setor cada vez mais exposto a incertezas. A combinação de medidas privadas e públicas, aliada à adoção de seguros especializados, é essencial para garantir a estabilidade financeira das explorações e a continuidade da produção. Com a PAC 2023-2027, Portugal dispõe de mais de 9,7 mil milhões de euros para apoiar medidas que reforçam a resiliência do setor. A aposta na gestão do risco é, assim, essencial para garantir a competitividade e sustentabilidade da agricultura nacional num contexto de crescente volatilidade. Num contexto de alterações climáticas e volatilidade dos mercados, investir em prevenção, planeamento e inovação é o caminho para uma agricultura mais resiliente, sustentável e capaz de assegurar a segurança alimentar das próximas gerações.

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