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09 Junho 2020
Carlos Andrade, Chief Economist



Perspetivas para o setor do turismo no pós-Covid-19

Temas a destacar

  • O impacto da Covid-19 poderá fazer recuar a procura externa turística em 20%-40% em 2020. Recuperação (a partir da 2ª metade do ano) deverá ser relativamente demorada;
  • Dado o peso relevante do sector na economia portuguesa (consumo turístico representa 15%-16% do PIB), é essencial preservar a capacidade produtiva (empresas e emprego) para se aproveitar plenamente a retoma;
  • Recuperação exige adaptação a uma "nova normalidade". Principais desafios passam pela segurança, rentabilidade, qualidade e comunicação.
Um dos setores mais afetados pela Covid-19
Procura externa pode recuar 20%-40% em 2020


O turismo é um dos setores mais afetados pelo choque da Covid-19. As estimativas iniciais da UNWTO apontavam para uma queda de 20% a 30% no fluxo internacional de turistas em 2020. Outras estimativas sugerem que, no caso de Portugal, esta queda poderia chegar a 40% (uma redução de 6.5 milhões de turistas estrangeiros vs. 16.3 milhões registados em 2019). Deverá também observar-se alguma redução nos 10.7 milhões de hóspedes residentes. Na fase inicial da crise, 62% das empresas de alojamento e restauração tinham encerrado a atividade (55% temporariamente) e 98% reportaram uma queda no volume de negócios. Embora se assista a uma recuperação com o desconfinamento, este deverá ser um dos setores a recuperar mais lentamente. Colocam-se desafios importantes, que exigirão uma adaptação a uma "nova normalidade".

 

 

O Turismo é um setor fundamental
Consumo turístico representa 15-16% do PIB português


A relevância do turismo para a recuperação da economia portuguesa é evidente. Estima-se que o turismo terá representado 8.5%-9% do VAB da economia portuguesa em 2019, e que o consumo total de turismo no território nacional terá representado 15%-16% do PIB. Outras medidas mais latas (e.g. WTTC) colocam o impacto do turismo na economia portuguesa próximo de 20% do PIB. O emprego nas atividades relacionadas com o turismo tem um peso próximo de 10% do total. Considerando apenas o alojamento e restauração, nos últimos 5 anos foram criados 74 mil empregos (um crescimento acumulado de 29.5%, vs. 8.2% de crescimento do emprego total). As exportações de serviços de turismo representaram 19.8% das exportações totais de bens e serviços (8.7% do PIB). E não pode ser esquecido o impacto do turismo nos sectores imobiliário, agroalimentar e industrial.

 

 

Preservar capacidade produtiva é prioridade
Foco nas medidas de apoio ao emprego e às empresas


Em Portugal, poderá assistir-se, em 2020, a uma queda anual da atividade turística de 15% a 20%, contribuindo para uma redução do PIB até 2.6%. Mesmo com uma recuperação a partir de junho (já visível), existe o risco de que a atividade do turismo se encontre, no final de 2021, ainda 10% a 15% abaixo dos níveis pré-Covid.
Este cenário seria concretizado se, por quebras do rendimento e da procura que se prevêem temporárias, se observassem aumentos significativos e mais duradouros do desemprego e do encerramento de empresas. Isso significaria que, quando a procura turística regressasse plenamente, Portugal não conseguiria aproveitar a recuperação económica na sua totalidade, porque teria perdido capacidade produtiva num sector fundamental. Uma prioridade deverá ser, assim, preservar a capacidade produtiva no turismo, através da extensão das medidas de proteção do emprego e de apoio à tesouraria e à estabilidade financeira das empresas.

 

 

Principais desafios na fase de recuperação
Segurança, rentabilidade, qualidade e comunicação


Enquanto uma vacina não estiver disponível e persistirem os impactos económicos da crise, os consumidores manter-se-ão cautelosos. Por outro lado, a economia pós-Covid-19 deverá ser menos global, mais digital e mais consciente (com consumidores mais exigentes no que respeita à qualidade, saúde, ambiente e valores das empresas). Este contexto gera vários desafios:
  • Promover o turismo no mercado interno "alargado" (turistas portugueses e espanhóis); em 2019, os portugueses fizeram 3 milhões de viagens turísticas ao exterior e 2.3 milhões de espanhóis visitaram Portugal);
  • Capitalizar, nos mercados externos chave, a imagem de Portugal como destino seguro no contexto Covid; e como país estável do ponto de vista social e político;
  • Preservar o estatuto de destino seguro através de medidas preventivas e sanitárias rigorosas;
  • Focar em segmentos de mercado com maior poder de compra e maior propensão a viajar (e.g. millenials), dada a pressão sobre a rentabilidade (custos acrescidos e restrições ao número de clientes);
  • Investir numa oferta com maior qualidade, mais personalizada, genuína e de menor densidade, assente em práticas sustentáveis;
  • Assegurar a acessibilidade aérea a partir dos mercados chave, assumindo capacidade e segurança da oferta turística;
  • Adaptar a comunicação e oferta a um consumidor mais digital.

 

 

 

Artigos anteriores

  • Susana Barros, Consultora Sénior



    Compras online em Portugal
    Perspetivas de crescimento no futuro


    O comércio online em Portugal é cada vez mais uma realidade pois, considerando os utilizadores de internet, em 2019, 39% dos portugueses fizeram uma compra por este canal, sendo que em 2010 esta percentagem era apenas de 15%. E é natural que no futuro nos aproximemos da média da UE, onde 63% dos utilizadores de internet fez compras online em 2019.

    Em Portugal, o canal online tem sido utilizado, sobretudo, para a compra de bilhetes, de roupa, de filmes, música e revistas, e de viagens e estadias. A compra de bens alimentares surge apenas depois destas rúbricas, com 28% dos portugueses a utilizaram o canal online para este tipo de despesa, em 2019. Se compararmos com outros países da UE, esta percentagem encontra-se bastante abaixo de países como Reino Unido e Holanda (do universo de utilizadores de internet).

     

     

    Compras Online de bens alimentares em cenário COVID-19
    Crescimento do canal online


    Com a quarentena decretada, os consumidores, restringidos ao seu lar, reagiram e reforçaram as suas compras habituais de bens alimentares, com um incremento da utilização do canal online, o que colocou alguma pressão nas cadeias de abastecimento e de logística. Comparando o período pré-COVID-19 (Janeiro a Fevereiro) com a semana de 18 a 24 de Maio as compras online do Comércio Alimentar e Retalho aumentaram 26% (na semana de 20 a 26 de Abril, o crescimento era de 44%).

    O peso das compras online nos setores do Comércio Alimentar e Retalho, Restauração, Food delivery & Takeaway, e entretenimento, aumentou de 29%, registado no pré-COVID-19, para 48% no final do mês de Maio.

     

     

    Oportunidades para o futuro
    Fidelização de novos clientes


    No pós COVID-19, é natural que alguns dos consumidores, em particular, os que tiveram boas experiências nas suas compras alimentares online fiquem fiéis a este canal:

    - Reforço das cadeias de logística das empresas vendedoras dos produtos e também da qualidade de desempenho das empresas de serviços postais;
    - Investimento em tecnologia adequada, com padrões de segurança, e que integrem meios de pagamento da máxima credibilidade e confiança, quer ao nível dos comerciantes como também dos consumidores;
    - O comércio online é uma oportunidade para estabelecer relações diretas entre os produtores e os consumidores e apoiar a produção local.

    "The crisis opens an opportunity to accelerate food system transformation. New business models are needed. It is the time to speed-up e-commerce in agriculture and food systems across the globe", Diretor Geral da FAO (Food and Agriculture Organization of the United Nations), QU Dongyu, 21 Abril 2020.

     

     

  • Susana Barros, Consultora Sénior



    Forte expressão do setor agroalimentar
    4.9% de peso no VAB, 10.5% de peso nas exportações


    O setor agroalimentar tem sido um dos principais setores em foco no período do Covid-19 - por um lado, continuando a operar e a assegurar o abastecimento necessário da população, no contexto de um aumento do peso dos bens alimentares no consumo doméstico das famílias em confinamento; por outro lado, sentindo os impactos negativos da queda da procura externa e da interrupção forçada da atividade na restauração e hotelaria, bem como as dificuldades associadas à escassez de mão de obra. No âmbito do setor primário e da indústria alimentar e bebidas, o agroalimentar desempenha um papel muito importante na economia portuguesa, com uma expressão de 4.9% no VAB nacional, 10.6% no número total de empresas e 7.2% no emprego. Se alargarmos a cadeia de valor ao comércio alimentar, i.e. considerando também o comércio por grosso e a retalho de bens alimentares (incluindo supermercados e hipermercados), o peso do setor ascende a 9.6% no VAB, 13.8% no número de empresas e 12.7% no emprego.

    A preponderância do setor agroalimentar no comércio internacional português é evidenciada pela sua representatividade nas exportações de bens, 10.5% do total, e no PIB português onde o seu peso ascende a 3%. Ainda que o setor agroalimentar globalmente apresente uma balança comercial deficitária, com saldo negativo em produtos como os cereais, o peixe e a carne, merecem destaque alguns produtos onde Portugal mundialmente se distingue.

    Os dados disponíveis mostram Portugal como o 9º maior exportador mundial de vinho, com 3% das exportações mundiais deste produto; e como o 3º maior exportador mundial de azeite, com um peso de 10% no total das exportações globais.

     

     

    Principais impactos do Covid-19
    Alterações nas cadeias de abastecimento e nos padrões de consumo


    As restrições e alterações de comportamentos impostos pelo Covid-19 - que se deverão traduzir numa economia menos globalizada, mais digital e mais consciente (i.e. com maiores preocupações de sustentabilidade), colocam desafios importantes a toda a cadeia de valor do setor alimentar. Entre as principais tendências pós-Covid, destacam-se as seguintes:

    - Cadeias de abastecimento mais curtas e menos globalizadas, que facilitam a circulação dos produtos, e aumentam a segurança do abastecimento;
    - Incremento da oferta de produtos nacionais, e consequente redução da dependência externa. A Distribuição Alimentar está a assumir essa responsabilidade social de apoio à produção nacional;
    - Reforço do canal Online e dos seus níveis de serviço e inovação nos serviços de takeaway e de marketplace, com possível redução nas lojas físicas;
    - Redefinição dos modelos de promoção dos produtos: online, influencers, comunidades de grupos de marcas, e redução de catálogos físicos;
    - Desenvolvimento de modelos de data analytics para prognosticar necessidades dos consumidores e mais rapidamente responder a choques de mercado;
    - Relevância das Associações e agrupamentos do setor para atuações conjuntas que o fortaleçam e atuem também junto da UE (foi fundamental a manutenção das green lanes que permitiram a manutenção da circulação de veículos de mercadorias na UE);
    - O futuro da produção de bens alimentares tem que passar pela exploração sustentável dos recursos disponíveis, capitalizando toda a inovação, criatividade e tecnologia do setor.

     

     

  • Carlos Andrade, Chief Economist



    Grandes eventos geram mudanças de fundo
    Impactos na sociedade, economia e comportamentos


    Para além dos seus impactos directos, os grandes eventos tendem a originar transformações estruturais importantes na sociedade e na economia. As duas guerras mundiais do séc. XX deram origem a inovações como a generalização da aviação comercial, a utilização de computadores, novos procedimentos cirúrgicos ou programas de vacinação (entre outras). As relações laborais e sociais alteraram-se (e.g. maior participação das mulheres no mercado de trabalho) e o papel do Estado nas economias aumentou. A descolonização foi acelerada e emergiram duas novas superpotências (EUA e União Soviética). A 1ª Guerra reverteu a 1ª fase da globalização e o impacto da 2ª Guerra motivou novas formas de cooperação entre países (e.g. Nações Unidas, integração europeia). O 11 de Setembro alterou a forma como viajamos e fez da segurança uma preocupação comum e constante. A "Grande Recessão" (2008-13) contribuiu para uma erosão das forças políticas mainstream e para um aumento dos extremismos.

    A outro nível, a Peste Negra (Séc. XIV) terá contribuído para a erosão do feudalismo e para uma alteração de mentalidades que ajudaria, mais tarde, o Renascimento. E a "gripe espanhola" de 1918-20 acelerou o fim da 1ª Guerra Mundial e incentivou a criação (sobretudo na Europa) de sistemas públicos de saúde.

     

     

    Economia pós Covid-19 será diferente
    Reacção ao surto veio acelerar tendências já em curso


    Todos estes exemplos sugerem que o surto do Covid-19 produzirá, também, alterações importantes a nível económico, social e comportamental, acelerando algumas tendências já em curso anteriormente. Não se sugere que tudo vá mudar. Mas, como a História mostra, quando uma barreira é derrubada, normalmente por uma necessidade vista como temporária, dificilmente se volta atrás ("não se consegue voltar a pôr a pasta de dentes dentro do tubo"). Identificar estas barreiras e tendências é fundamental para saber navegar na economia pós Covid-19.

     

     

    Principais tendências esperadas
    Uma economia menos global, mais digital e mais consciente


    Entre as prováveis tendências pós Covid-19, destacam-se:

    - Uma aceleração no investimento e utilização de novas tecnologias de comunicação, incluindo 5G.
    - Aumento do peso do retalho e entretenimento online.
    - Aumento do investimento em logística. Dificuldades para a sharing economy.
    - Alterações nos hábitos de trabalho, com maior recurso ao teletrabalho e videoconferência; menor densidade nos escritórios; redução de viagens e eventos, pressionando o imobiliário, a aviação e o turismo de negócios.
    - Recuo da globalização (acentuando um processo já em curso), com revisão das cadeias globais de produção e menor dependência da China. Aumento do investimento em capacidade produtiva local.
    - Aumento do investimento em cuidados e tecnologia de saúde. Foco na prevenção de epidemias e bioterrorismo.
    - Reforço das políticas e práticas de protecção ambiental. Menor tolerância para actividades e empresas poluidoras.
    - No turismo, maior preferência por destinos com menor densidade e maior qualidade. Ajustamento da oferta.
    - Maior peso do turismo doméstico.
    - Maior consciência da saúde financeira. Foco na poupança preventiva e nos buffers de liquidez.
    - Acentua-se a valorização das experiências vs. posse material. Maior consciência da importância dos que nos são próximos (valorização do tempo, saúde, etc.).
    - Consumidores mais exigentes. Maior valorização da responsabilidade social e purpose das empresas.
    - Aumento do peso do Estado nas economias (apoios a empresas e famílias, bailouts, protecção de sectores estratégicos). Aumento do défice e dívida públicos.

 

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