Agricultura e Agroindústria
Efeitos da guerra no Médio Oriente no setor agrícola
O bloqueio do Estreito de Ormuz, provocado pela escalada militar envolvendo o Irão, causou fortes perturbações no mercado global de fertilizantes e energia, num dos momentos mais críticos do calendário agrícola. Os preços dispararam, a incerteza aumentou e cresceu o receio de uma nova crise alimentar internacional.
Ainda assim, algumas explorações agrícolas europeias mostram‑se surpreendentemente resilientes, sobretudo aquelas que adotaram modelos de produção menos dependentes de recursos importados.
Cerca de um terço do comércio mundial de fertilizantes passa pelo Estreito de Ormuz, uma das vias marítimas mais estratégicas do planeta. Com o bloqueio do estreito na sequência do conflito no Médio Oriente, o transporte de produtos essenciais como a ureia e o amoníaco ficou gravemente condicionado, afetando tanto o abastecimento como os preços nos mercados internacionais.
A situação agrava‑se porque esta mesma rota é igualmente vital para o transporte de petróleo e gás natural, fatores decisivos na produção de fertilizantes azotados sintéticos. O gás natural representa cerca de 80% dos custos de produção destes fertilizantes e, desde o início da guerra, o seu preço disparou na Europa, empurrando os custos de produção para níveis que muitos agricultores dificilmente conseguem absorver.
Segundo dados do Financial Times, o preço da ureia subiu mais de 40% em poucas semanas. Em vários países europeus, como a Alemanha, os fertilizantes azotados encareceram entre 15% e 30%. Operadores do setor alertam que o problema já não se resume ao preço: embora exista produto, a logística está fortemente perturbada, dificultando a entrega atempada aos agricultores.
Maior pressão num momento-chave do ciclo produtivo
O impacto do conflito surge numa fase particularmente sensível do ano. No hemisfério norte, a primavera marca o início de ciclos agrícolas decisivos: o trigo de inverno necessita de uma nova aplicação de azoto, enquanto culturas como a beterraba sacarina, a colza e o milho entram em fases críticas de crescimento. Atrasos ou reduções na aplicação de fertilizantes podem traduzir‑se em perdas significativas de produtividade nas colheitas deste ano e do próximo.
Especialistas ouvidos pela FAO e por outros organismos internacionais alertam que, se a crise se prolongar, muitos agricultores poderão reduzir o uso de fertilizantes ou mudar de culturas, optando por alternativas menos exigentes em nutrientes. Esta decisão, aparentemente racional a curto prazo, pode gerar efeitos em cadeia, afetando a disponibilidade de cereais, a alimentação animal e, mais tarde, os preços da carne, do leite e dos ovos.
Principais efeitos da guerra no Médio Oriente no setor agrícola
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Aumento abrupto do preço
dos fertilizantes, sobretudo os azotados
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Subida dos custos de produção agrícola,
pressionando as margens dos agricultores
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Risco de atrasos nas sementeiras e fertilizações, com impacto
direto nas colheitas
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Alteração das escolhas de culturas, privilegiando
variedades menos exigentes
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Pressão inflacionista nos alimentos,
ao longo de toda a cadeia agroalimentar
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Maior vulnerabilidade
dos países importadores
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Reforço da dependência entre energia,
agricultura e estabilidade geopolítica
Risco de crise alimentar global
Apesar de, para já, não existir escassez imediata de alimentos, graças às elevadas reservas mundiais de cereais, os sinais de alerta acumulam‑se.
A Organização Mundial de Agricultores estima que, se o comércio de fertilizantes não for restabelecido de forma estável, a produção alimentar global poderá cair entre 12,5% e 15% até 2027. O Programa Alimentar Mundial das Nações Unidas vai mais longe: uma escalada prolongada do conflito poderá empurrar até 45 milhões de pessoas para situações de fome aguda, sobretudo em regiões altamente dependentes de importações.
A FAO fala mesmo numa “crise de fatores de produção” e avisa que o tempo para evitar impactos estruturais está a esgotar‑se, sublinhando que as decisões tomadas agora pelos agricultores terão efeitos durante vários anos.
Agricultura regenerativa mostra‑se mais resistente à crise
Neste contexto de instabilidade, algumas explorações agrícolas enfrentam a crise com maior tranquilidade. São explorações que apostaram, nos últimos anos, na agricultura regenerativa — um modelo que reduz drasticamente a dependência de fertilizantes sintéticos importados.
Estas explorações mantêm níveis de produtividade semelhantes aos da agricultura convencional, mas com custos significativamente mais baixos. Apostam no reforço da fertilidade natural do solo através de composto, estrume animal, pastoreio rotativo, culturas de cobertura e reciclagem de matéria orgânica, criando sistemas mais autónomos e resilientes.
Apesar das vantagens ambientais, económicas e sociais, a agricultura regenerativa continua longe de ser dominante. Apenas cerca de 2% das explorações europeias são consideradas totalmente regenerativas, e entre 5% e 10% encontram‑se em transição.
A mudança exige investimento, formação e tempo e os resultados nem sempre são imediatos. Por essa razão, especialistas defendem a necessidade de políticas públicas consistentes, incentivos económicos e mecanismos de financiamento que acelerem esta transformação do modelo agrícola.
O conflito revela os limites do atual modelo agrícola
O conflito no Médio Oriente voltou a expor a profunda interligação entre energia, fertilizantes e produção alimentar, num sistema global altamente dependente de cadeias logísticas frágeis e de poucos pontos estratégicos.
Enquanto governos e mercados tentam evitar que uma crise de fatores de produção evolua para uma crise alimentar, as explorações menos dependentes de importações mostram que outra agricultura é possível e talvez mais preparada para um mundo cada vez mais instável.
Fontes:
Europa: explorações agrícolas sofrem com guerra contra o Irão, agricultores regenerativos previram | Euronews; Guerra no Médio Oriente está a travar fertilizantes e ameaça a produção de alimentos - Expresso; A crise dos fertilizantes na Europa: preços elevados devido à guerra no Irão e à dependência da Rússia | Euronews; Irão: Organização Mundial de Agricultores prevê queda da produção se conflito se prolongar - Mundo - SÁBADO; Guerra no Médio Oriente trava mercado de fertilizantes e levanta risco de crise alimentar; FAO alerta para risco de subida dos preços alimentares devido aos bloqueios no Estreito de Ormuz
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