Turismo
Destinos moldados pela água
Os recursos hídricos constituem um dos ativos mais diferenciadores da oferta turística portuguesa, desempenhando um papel central na atração de visitantes e na criação de valor económico. Do litoral atlântico aos rios interiores, passando pelas albufeiras e estâncias termais, a água emerge como um elemento estruturante do Turismo nacional, suportando uma diversidade de experiências que contribuem para a competitividade do destino. Este conjunto de recursos integra-se numa lógica mais ampla de Turismo Azul, que combina exploração económica com valorização ambiental, reforçando a posição de Portugal enquanto destino atlântico de referência.
À escala mundial, o Turismo associado à água representa uma componente significativa da economia turística. Segundo a ONU Turismo, as explorações costeira e marítima assumem um peso determinante na chamada Economia Azul, podendo representar cerca de um terço da atividade turística, com forte impacto na criação de emprego e riqueza. Para além disso, a relação entre o setor e os oceanos é reconhecida como estratégica no âmbito dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, destacando o seu papel na conservação dos ecossistemas marinhos e no desenvolvimento sustentável das comunidades costeiras. Este enquadramento internacional reforça a importância de uma gestão equilibrada e sustentável dos recursos hídricos, garantindo a sua preservação e valorização a longo prazo.
O quadro seguinte sintetiza os segmentos que representam de forma mais direta a exploração turística dos recursos hídricos em Portugal:
| SEGmentos em destaque | Principais recursos |
|---|---|
Turismo Costeiro | Oceano, praias, falésias, ondas |
Turismo Náutico | Marinas, portos de recreio, rios, lagos e albufeiras |
Turismo Fluvial | Rios navegáveis, estuários, praias fluviais |
Turismo Termal | Águas minerais naturais, águas termais de origem subterrânea |
Em Portugal, o Turismo Costeiro mantém-se como o principal motor da procura, associado ao tradicional produto “sol e mar”, mas com uma crescente diversificação de experiências. O país beneficia de uma extensa linha de costa, com praias reconhecidas internacionalmente e condições naturais privilegiadas para atividades como surf, vela e mergulho. A título de exemplo, a Ericeira, primeira Reserva Mundial de Surf da Europa, atrai praticantes de todo o mundo graças à qualidade das suas ondas e à oferta turística especializada associada a esta modalidade. Também o Algarve tem reforçado a diversificação da oferta marítimo-turística, através de experiências como observação de golfinhos, passeios às grutas marinhas da costa de Lagoa e Portimão e atividades de mergulho em recifes artificiais e navios afundados. Rumo a Norte, Viana do Castelo e Esposende têm ganho notoriedade entre os praticantes de mergulho, graças à diversidade de habitats marinhos e à possibilidade de explorar formações rochosas submersas e recifes naturais.
Quanto ao Turismo Náutico, este tem vindo a afirmar-se como um segmento estratégico, apoiado por uma rede crescente de marinas, portos de recreio e infraestruturas especializadas. Neste contexto, destaca-se a iniciativa Portugal Náutico, que reúne atualmente cerca de 51 Estações Náuticas certificadas, com aproximadamente 2.200 parceiros distribuídos por todo o território nacional. Uma entidade interessada em integrar esta rede deve contactar a Estação Náutica do seu concelho ou região e manifestar o seu interesse, podendo estas ser Empresas de animação turística, operadores turísticos, agências de viagens, hotéis, empreendimentos turísticos, alojamentos locais, restaurantes, outras Empresas de restauração, clubes náuticos, escolas de desportos náuticos, marinas, portos de recreio e outras infraestruturas náuticas, municípios, associações e entidades locais.
Outra vertente em forte crescimento é o Turismo Fluvial, contribuindo para a valorização de territórios do interior e para a diversificação da oferta turística. O caso do Douro é particularmente ilustrativo: a via navegável registou cerca de 1,38 milhões de passageiros em 2025, com uma trajetória de crescimento contínuo ao longo da última década e gerando um impacto económico estimado entre 350 e 450 milhões de euros anuais. Mais a sul do país, o Grande Lago Alqueva tem-se destacado como um importante destino de Turismo Fluvial, beneficiando ainda da certificação como Destino Turístico Starlight. Ambas as regiões demonstram como a valorização dos recursos fluviais pode contribuir para a dinamização económica, atraindo visitantes para regiões tradicionalmente afastadas dos grandes fluxos turísticos do litoral.
O termalismo, o qual assenta na valorização de recursos hidrominerais, nomeadamente águas minerais naturais e águas termais de origem subterrânea, pode ser encarado com uma excelente oportunidade de investimento turístico em Portugal, assinalando-se 3 tendências no Turismo Termal: significativo aumento de quota do termalismo de bem-estar relativamente ao termalismo clássico, contínuo rejuvenescimento da base de clientes (com crescimento acentuado dos utilizadores dos 15 aos 45 anos) e incremento significativo de clientes franceses, norte-americanos, brasileiros e alemães. Este potencial é evidenciado por investimentos recentes como a requalificação das Caldas de Aregos, no Douro, num projeto de cerca de 7 milhões de euros, e pela reabertura das Termas do Carapacho, nos Açores, após obras de modernização que reforçaram a sua oferta de saúde e bem-estar.
A importância dos recursos hídricos para o setor é reforçada pela existência de vários instrumentos públicos de apoio ao investimento. Um exemplo recente é a implementação do Programa de Valorização Económica dos Recursos Endógenos (PROVERE), financiado pelo CENTRO2030. Ao abrigo do mesmo, em 2025, foram aprovados 5,25 milhões de euros para estratégias ligadas ao Turismo Náutico, ao Turismo de Natureza e ao Termalismo na Região Centro, incluindo uma agenda específica para a valorização de 25 territórios termais e uma estratégia de reforço das Estações Náuticas do Centro de Portugal. Outro caso é o da Estação Náutica de Vila da Ponte que, através do programa Crescer Com o Turismo do Turismo de Portugal, irá receber um incentivo não reembolsável com vista à concretização de investimentos diversos, alguns dos quais no domínio do Turismo Náutico.
Destacamos ainda a existência de instrumentos de financiamento como a Linha de Apoio à Qualificação da Oferta 2024 e a Linha Turismo + Sustentável, ambas com possibilidade de conversão de parte do financiamento em subvenção não reembolsável, as quais apoiam, entre outras, iniciativas de qualificação da oferta, regeneração territorial, inovação, desenvolvimento sustentável, investimentos associados à gestão eficiente da água e ao aumento da eficiência energética. Adicionalmente, ao abrigo do Programa REVIVE, existem oportunidades de investimento e de financiamento no domínio da exploração turística de recursos hídricos, tais como as Termas das Caldas do Moledo (integradas na 3.ª fase do referido programa) e o Hospital do Outão (uma antiga fortaleza costeira com origens medievais, encontrando-se numa localização privilegiada no Parque Natural da Arrábida, com vista para o estuário do Sado).
Apesar das oportunidades, a exploração turística dos recursos hídricos enfrenta desafios, sobretudo no domínio da sustentabilidade. A água é um recurso limitado e sujeito a pressões crescentes, resultantes das alterações climáticas, da poluição e do aumento da procura. Em Portugal, a gestão eficiente da água é uma prioridade estratégica, com apenas uma parte das massas de água a apresentar bom estado global, segundo avaliações ambientais recentes. Esta realidade exige políticas públicas integradas, que conciliem o desenvolvimento turístico com a proteção dos ecossistemas e a utilização sustentável dos recursos. Instrumentos estratégicos como a Estratégia Turismo 2027 e a Estratégia Turismo 2035 continuarão a promover modelos de desenvolvimento assentes na valorização dos recursos endógenos, na inovação e na sustentabilidade, assegurando que o potencial turístico da água se traduz simultaneamente em crescimento económico, preservação ambiental e melhoria da qualidade de vida das comunidades locais.
Em suma, os recursos hídricos continuarão a desempenhar um papel central na evolução do setor, não apenas pela diversidade de experiências que proporcionam, mas também pelo contributo que oferecem para a economia nacional, para a valorização dos territórios e para a qualificação da oferta turística nacional. Do Turismo Costeiro ao Fluvial, do Náutico ao Termal, a água permanece um dos ativos mais distintivos do país. O desafio passa por garantir que este potencial é desenvolvido de forma sustentável, conciliando incremento de margens, preservação ambiental e bem-estar das comunidades, para que as gerações futuras possam continuar a desfrutar deste ativo como um dos maiores patrimónios do Turismo em Portugal.
Fontes:
Tourism Rises to the Ocean Challenge at UNOC3: A Unified Call for a Blue Transformation; UN Tourism - Contribution_Ocean Conf 2025_final for website.pdf; TravelBI by Turismo de Portugal - Termas em Portugal | 2024; Turismo fluvial do Douro exige plano nacional. “Já não podemos crescer sem estratégia” – ECO; Água | Relatório do Estado do Ambiente; Blue Tourism - Blue Tourism Initiative; Coastal tourism - EU Blue Economy Observatory - European Commission; TravelBI by Turismo de Portugal - Portugal Náutico: uma Rede Estruturante para o Turismo Náutico Nacional; BLUE-TOURISM_PR3_PT.pdf; Estações Náuticas de Portugal; Estações Náuticas; Blue Tourism | EPALE; Candidatura – ForumOceano; Dinamização de recursos; Turismo fluvial do Douro enfrenta limite estrutural | Empreendedor.com; A Evolução do Turismo Náutico em Portugal; Relaxar no Alqueva, o Grande Lago | www.visitportugal.com; Estação Náutica de Moura-Alqueva - Estações Náuticas; Governança e dinamização dos territórios: pioneirismo, marca e reputação internacional; Estabelecimentos Termais em atividade e terapêuticas; Edifício termal requalificado com 7 milhões de euros; Concluídas as obras de reabilitação das Termas de Caldas de Arêgos – Vale do Sousa TV; Termas do Carapacho na Graciosa reabrem - RTP Açores; Inovação Termal: Termas da Graciosa com Três Águas Distintas; Programas de apoio e incentivos; Portugal 2030; Centro de Portugal invierte en turismo náutico, termal y de naturaleza | Expreso; Turismo Centro de Portugal promove turismo náutico na Nauticampo; Região Centro investe na valorização dos Recursos Endógenos - Centro 2030; Região Centro investe na valorização dos Recursos Endógenos – ccdrc; lista projetos aprovados - linha crescer com o turismo 2025-2026; Das aldeias aos miradouros. Turismo de Portugal financia 12 projetos com 3,9 milhões - Notícias - TRAVELMAGG; Linha de apoio à qualificação da oferta; Termas das Caldas do Moledo integram Programa REVIVE; Bem-vindo a REVIVE | REVIVE; HOSPITAL DO OUTÃO | REVIVE; CALDAS DE MOLEDO | REVIVE; Atividades de Mergulho - Amigos do Mar e Cavaleiros do Mar - O que fazer;
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