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Turismo em tempos de incerteza

Os conflitos geopolíticos e a instabilidade que deles advém assumem, hoje, um papel determinante nas dinâmicas do setor Turismo. De acordo um artigo recentemente publicado pela ONU Turismo, cerca de 64% dos profissionais do setor consultados indicaram que os conflitos no Médio Oriente estão a afetar negativamente a procura turística nos seus destinos. Destes, 43% consideram o impacto moderado e 21% elevado. Por outro lado, 36% dos especialistas afirmaram que os conflitos têm pouco ou nenhum impacto na procura turística. Esta perceção deriva de uma maior sensibilidade dos visitantes à segurança e estabilidade dos destinos, levando a uma reconfiguração dos fluxos turísticos mundiais. Em vez de deixarem de viajar, os turistas estão a substituir destinos considerados de risco por alternativas mais seguras. No mesmo artigo, pode ler-se que o Turismo internacional cresceu 2% no primeiro trimestre de 2026, alcançando 307 milhões de viajantes, com Europa e África a destacarem-se pelo crescimento das chegadas turísticas (+4), enquanto o Médio Oriente registou uma quebra de 14%, refletindo o impacto direto da crise que se vive na região. Neste contexto, temos visto como o conflito no Médio Oriente está a provocar perturbações na conectividade aérea, aumento dos preços dos combustíveis e dos custos de viagem, levando a ONU Turismo a rever em baixa as previsões de crescimento para 2026.

Outras variáveis geopolíticas e regulatórias também estão a influenciar cada vez mais as escolhas dos viajantes. A guerra na Ucrânia mantém efeitos visíveis nos fluxos turísticos europeus, sobretudo nos países da Europa de Leste, enquanto o reforço de controlos fronteiriços e do reajustamento de políticas migratórias em alguns mercados, como por exemplo nos Estados Unidos, tem contribuído para uma maior ponderação na escolha dos destinos. Na Ásia, persistem igualmente condicionantes relacionadas com tensões geopolíticas no Mar do Sul da China e no Estreito de Taiwan, fatores que continuam a ser acompanhados de perto pelo setor, devido ao potencial impacto na conetividade aérea e na perceção de segurança. Também em destinos mais tradicionais como Cuba, a instabilidade económica, os desafios de rentabilidade e a alteração dos padrões da procura internacional têm levado várias unidades hoteleiras a encerrar, a suspender operações ou a serem alvo de processos de desinvestimento, refletindo a adaptação do setor a um contexto global mais exigente. Paralelamente, fenómenos como o aumento dos custos de transporte, a volatilidade económica e até eventos climáticos extremos têm vindo a ganhar relevância nas decisões dos turistas, favorecendo destinos considerados mais estáveis, acessíveis e previsíveis. Neste contexto, a competitividade turística depende cada vez mais da capacidade dos destinos em transmitir confiança, garantir segurança e responder rapidamente a cenários de incerteza.

Em contrapartida, o atual contexto internacional está a criar oportunidades singulares para destinos que conseguem posicionar-se como seguros, acessíveis e resilientes. A Europa tem sido uma das principais beneficiárias desta redistribuição dos fluxos turísticos, sobretudo os países do Sul do velho continente (Portugal, Espanha, Grécia e Itália), que estão a reforçar a sua atratividade junto de viajantes que procuram estabilidade política, boa conectividade e uma oferta turística diversificada. Para Portugal, este cenário representa uma oportunidade para consolidar o seu posicionamento internacional, reforçando a promoção externa, diversificando mercados de origem e valorizando segmentos de maior valor acrescentado, como o Turismo de natureza, cultural, de negócios e de bem-estar. Simultaneamente, vários destinos africanos e mediterrânicos têm vindo a ganhar relevância, beneficiando da procura por experiências autênticas e da crescente diversificação geográfica dos mercados emissores. Mais do que captar turistas que evitam destinos instáveis, importa fidelizar estes visitantes através da qualidade da experiência, da inovação da oferta e da sustentabilidade dos destinos.

Neste ambiente marcado pela incerteza, a capacidade de antecipação tornou-se um fator essencial para a competitividade do setor. Os profissionais do Turismo deverão reforçar a monitorização dos riscos geopolíticos, energéticos e climáticos, adotando estratégias que permitam mitigar impactos operacionais e financeiros. Entre as mais relevantes destacam-se a diversificação dos mercados emissores, a redução da dependência de canais de distribuição específicos, a celebração de parcerias com múltiplos operadores e companhias aéreas, bem como a aposta em modelos de negócio mais flexíveis e adaptáveis às alterações da procura. O incremento da eficiência energética assume, igualmente, uma grande importância, reduzindo a exposição das Empresas à volatilidade dos custos energéticos. Paralelamente, os reforços da digitalização, da cibersegurança, da gestão de dados e dos sistemas de previsão da procura poderão permitir tomadas de decisões mais rápidas e bem fundamentadas em cenários de elevada incerteza. As entidades que estão a antecipar estas realidades podem dispor de diversos instrumentos financeiros, dos quais destacamos os apoios públicos no âmbito do PT2030 (para inovação, digitalização, eficiência energética, internacionalização e sustentabilidade das PME) ou do Banco Português de Fomento (por exemplo via Linha Portugal Resiliência Energética ou Linha Turismo + Sustentável).

Exemplos reais de áreas diversas do setor tais como o Grupo Pestana (que, através do programa Planet Guest, tem apostado na redução dos consumos de energia e água, na alteração de fontes energéticas, na gestão eficiente de recursos e na descarbonização das operações), a ANA – Aeroportos de Portugal (que tem vindo a reforçar e a diversificar ligações aéreas), a Abreu (que tem vindo a alargar o seu portefólio para além dos destinos mais tradicionais), a TAP (que tem modernizado a sua frota com incorporação de aeronaves de nova geração, mais eficientes em termos de consumo de combustível, reduzindo a exposição aos aumentos dos custos energéticos e melhorando a sustentabilidade das operações), a MSC Cruzeiros (tem vindo a adaptar a sua operação, procedendo à revisão de itinerários e reposicionamento de navios para evitar zonas de risco bélico), o restaurante Il Gallo D'Oro (tem reforçado a utilização de matérias-primas de proximidade, recorrendo a uma horta própria situada a poucos quilómetros do restaurante para abastecimento de frutas, legumes e ervas aromáticas, valorizando os produtos locais e reduzindo a dependência de cadeias de abastecimento mais longas) e a rede de restaurantes McDonald's Portugal (com um projeto-piloto cujo objetivo passa por testar ferramentas para a produção e revalorização de energia) ilustram práticas de adaptação aos novos desafios do setor.

A resposta aos desafios emergentes não se tem limitado apenas a estratégias empresariais. A própria União Europeia tem vindo a reforçar a proteção dos viajantes através de diferentes iniciativas legislativas. Por um lado, foi alcançado um acordo para a revisão das regras relativas aos direitos dos passageiros aéreos, com medidas destinadas a simplificar os processos de compensação por atrasos e cancelamentos, reforçar a assistência aos passageiros e aumentar as obrigações de informação das companhias aéreas. Paralelamente, encontra-se em revisão a Diretiva das Viagens Organizadas (Package Travel Directive), que incide sobre os pacotes turísticos e visa tornar a proteção dos consumidores mais eficaz em situações de crise, reforçando os direitos a reembolsos, a proteção em caso de insolvência dos operadores turísticos, a transparência na utilização de vouchers e as condições de cancelamento perante circunstâncias extraordinárias, como conflitos armados ou emergências de grande escala. Estas alterações procuram responder às fragilidades identificadas durante a pandemia de COVID-19, à falência de grandes operadores turísticos e às perturbações provocadas por conflitos internacionais, assegurando maior confiança aos consumidores na aquisição de viagens e serviços turísticos. Ao mesmo tempo, contribuem para reforçar a resiliência e a credibilidade do mercado único europeu, reduzindo a vulnerabilidade dos viajantes perante acontecimentos imprevistos que possam comprometer a realização das suas deslocações.

Em conclusão, num contexto internacional marcado por conflitos armados, tensões geopolíticas, volatilidade económica e crescente incerteza, a capacidade de adaptação assume-se como um dos principais fatores de sucesso para os destinos e Empresas turísticas. Se, por um lado, estes desafios condicionam a procura, aumentam os custos operacionais e obrigam a uma gestão mais cuidadosa do risco, por outro criam oportunidades para os territórios que conseguem afirmar-se como seguros, resilientes e capazes de responder rapidamente às mudanças do mercado. Neste enquadramento, a diversificação de mercados, a inovação, a sustentabilidade, a eficiência operacional e o reforço da confiança dos consumidores assumem uma importância estratégica crescente. Para Portugal, o desafio passará por transformar este contexto de incerteza numa oportunidade de diferenciação competitiva, consolidando a sua posição como destino de referência e preparando o setor para um futuro cada vez mais exigente, dinâmico e interligado.

Fontes:

International tourism up 2% in Q1 2026 amid growing uncertainty; UN Tourism World Tourism Barometer | Global Tourism Statistics; Impact of the Russian offensive in Ukraine on international tourism; How the war in Ukraine impacts aviation – and what to do about it | ITF; Planned U.S. Border Social Media Changes Could Reduce Visitor Spend By USD $15.7 Billion and Impact 157,000 American Jobs, According To New WTTC Research; U.S. Remains World's Largest Travel & Tourism Market But WTTC Warns That the Country is at a Crossroads; WTTC: US tourism at the crossroads - TTR Weekly; Taiwan Explained: Why China Claims It, and Why the U.S. Is Involved | Council on Foreign Relations; Crossroads of Commerce: How the Taiwan Strait Propels the Global Economy; Tourism Crisis Deepens Cuba's Economic Collapse with Hotel Closures and Over 1,700 Flights Canceled; Cuba shuts hotels, relocates tourists as fuel shortage worsens; The Cuban government is closing hotels due to a lack of fuel; European tourism holds firm despite rising uncertainty and changing traveller priorities - ETC Corporate - ETC Corporate; WTTC warning over tourism spending in the US; IEA – International Energy Agency; Tourism | OECD; Sustainable Tourism | One Planet network; Travel & Tourism Economic Impact Research (EIR); Expert Insights: Caribbean & Global Tourism Analysis 2026 - Tourism Analytics - Caribbean Tourism Data & Statistics; Linha Portugal Resiliência Energética - Banco Português de Fomento; Agência de aviação da UE prolonga recomendação contra voos sobre Irão, Líbano e Iraque | TNEWS - Magazine Digital B2B Turismo; Turismo europeu subiu 5% apesar da incerteza e mudança nas prioridades dos viajantes | Publituris; União Europeia revê legislação e reforça direitos dos passageiros aéreos | Publituris; How Airlines Have Hedged Against Fuel Price Increases - Energy News, Top Headlines, Commentaries, Features & Events - EnergyNow.com; Greenvolt Junta-Se Ao Vila Galé Para Levar Energia Solar A 13 Hotéis; PLANET GUEST | Pestana Sustainability Program; Vida Económica | Pestana Hotel Group renova distinções Green Key em Portugal e estreia-; Aeroporto do Porto ganha 21 novas rotas, seis delas intercontinentais – ECO; IPW 2026: viagens de neve, motorhome e eventos impulsionam estratégia da Abreu; Solférias reforça operação para o Egito com novos voos de Lisboa e Porto em 2026 | TNEWS - Magazine Digital B2B Turismo; Secretária de Estado da Energia e Clima visitou McDonald's; ci_secretaria-de-estado-da-energia-visita-projeto-piloto-da-mcdonalds-que-aposta-na-energia-renovavel_21-jun.pdf; MSC World Cruise 2026: New Route instead of Red Sea - etwas MEERzeit; MSC Cruises Drastically Changing World Cruise Due to Unrest; MSC Cancels Grand Voyage Due to Red Sea Security Issues; 5 things to know about the EU’s air passenger rights reform deal – POLITICO; Council and Parliament reach landmark agreement on stronger EU air passenger rights - Consilium; Os 4 galardoados com o prémio Sol Sustentável 2025 | Guia Repsol; Registo dos agentes de animação turística

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