Agricultura e Agroindústria
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Agricultura e Agroindústria
A economia circular está a afirmar-se como um dos principais vetores de transformação do setor agroalimentar europeu. Face aos desafios colocados pelas alterações climáticas, pela escassez de recursos naturais e pela necessidade de aumentar a eficiência produtiva, produtores agrícolas, indústrias alimentares e distribuidores procuram cada vez mais soluções que permitam reduzir desperdícios, valorizar subprodutos e maximizar a utilização dos recursos ao longo de toda a cadeia de valor. A União Europeia considera mesmo a transição para uma economia circular um dos pilares do Pacto Ecológico Europeu, promovendo iniciativas destinadas a reduzir a pressão sobre os recursos naturais, aumentar a competitividade das Empresas e acelerar a descarbonização da economia.
O potencial de desenvolvimento é particularmente relevante no setor alimentar. Segundo dados divulgados pelas instituições europeias, mais de 59 milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas anualmente na União Europeia, o equivalente a cerca de 132 kg por habitante. Este desperdício representa uma significativa perda económica e ambiental, sendo responsável por aproximadamente 16% das emissões de gases com efeito de estufa associadas ao sistema alimentar europeu.
Neste contexto, a economia circular propõe uma alteração profunda do modelo tradicional de produção. Em vez da lógica linear baseada em extrair, produzir, consumir e descartar, procura-se manter os recursos em circulação durante mais tempo, promovendo a reutilização, reciclagem e valorização dos materiais existentes. No setor agroalimentar, esta abordagem traduz-se na transformação de resíduos e subprodutos agrícolas em novas matérias-primas, fertilizantes orgânicos, energia renovável ou ingredientes para novas aplicações industriais e alimentares.
A adoção dos princípios da economia circular não é apenas uma tendência internacional. Em Portugal existem já diversos exemplos de valorização de recursos que demonstram o potencial económico e ambiental desta abordagem.
Na fileira do azeite, vários projetos de inovação têm vindo a explorar o aproveitamento de resíduos resultantes da extração, nomeadamente para a produção de biocombustíveis e outros produtos de valor acrescentado. Em vez de serem encarados como um passivo ambiental, estes subprodutos passam a constituir uma nova fonte de rendimento para as Empresas.
Também na pecuária têm sido desenvolvidas iniciativas destinadas à valorização dos efluentes agropecuários. Estes projetos procuram transformar resíduos pecuários em fertilizantes orgânicos e biomassa para produção energética, contribuindo simultaneamente para reduzir impactos ambientais e aumentar a eficiência das explorações.
Outro exemplo relevante é o crescente aproveitamento da biomassa agrícola e florestal para produção de energia renovável. Segundo informação divulgada pelo setor energético, a biomassa representa uma componente importante do mix renovável nacional, contribuindo para a independência energética e para a valorização de resíduos agrícolas e florestais com reduzida utilização económica.
A Rede Rural Nacional identifica igualmente diversos projetos de bioeconomia circular relacionados com a valorização de resíduos do processamento de cereais, biomassa florestal, subprodutos agroindustriais, agroflorestais e até excedentes da produção agrícola, demonstrando a crescente capacidade de inovação do setor agroalimentar português.
Durante muitos anos, os investimentos em sustentabilidade foram frequentemente encarados apenas como um custo. Hoje, a realidade é diferente. A redução do desperdício, a reutilização de recursos e a otimização dos processos produtivos podem traduzir-se em benefícios económicos concretos, contribuindo para diminuir custos operacionais e reduzir a dependência de matérias-primas externas.
Em paralelo, consumidores, distribuidores e grandes cadeias de retalho valorizam cada vez mais produtos produzidos de forma sustentável, criando novas oportunidades de diferenciação para as Empresas que consigam demonstrar boas práticas ambientais. A sustentabilidade tornou-se, assim, não apenas uma exigência regulatória, mas também um fator de competitividade e acesso ao mercado.
A digitalização desempenha igualmente um papel relevante nesta transformação. Sistemas inteligentes de monitorização, sensores, análise de dados e ferramentas avançadas de gestão permitem reduzir desperdícios, otimizar consumos de água e energia e melhorar a eficiência das operações agrícolas e industriais.
O reforço das políticas de economia circular deverá continuar a ganhar relevância nos próximos anos. O novo Plano de Ação para a Economia Circular em Portugal identifica a cadeia de valor dos "alimentos, água e nutrientes" como uma das áreas prioritárias para o desenvolvimento de soluções que promovam a prevenção do desperdício, a valorização de subprodutos e a utilização eficiente dos recursos hídricos.
Ao nível europeu, a economia circular continua igualmente a ser considerada essencial para atingir os objetivos de neutralidade carbónica, proteção da biodiversidade e utilização sustentável dos recursos naturais, reforçando a importância deste tema para o futuro da agricultura e da agroindústria.
Num setor confrontado simultaneamente com desafios económicos, ambientais e produtivos, a economia circular surge como uma oportunidade concreta para criar valor, reduzir custos e aumentar a resiliência das Empresas. Os exemplos já existentes em Portugal demonstram que resíduos agrícolas, subprodutos agroindustriais, biomassa e efluentes podem transformar-se em recursos com valor económico, contribuindo para modelos de negócio mais eficientes e sustentáveis. Mais do que uma tendência, a economia circular está a afirmar-se como um dos pilares da agricultura e agroindústria do futuro, reforçando a competitividade das Empresas e preparando-as para responder às exigências dos mercados, dos consumidores e das políticas públicas.
Fontes:
Circular economy action plan | EU Agri-food Platform; Circular Economy - Environment - European Commission; Desperdício alimentar - Consilium; Desperdício alimentar na Europa: factos, políticas da UE e metas para 2030 | Atualidade | Parlamento Europeu; E-book_Boas-Praticas-Circulares_Reinova_SI_.pdf; Projetos de Bioeconomia; Biomassa: que futuro renovável temos em mãos? - Agriterra - Informação profissional para a agricultura portuguesa; FoodDrinkEurope_Circular_Economy_Action_Plan.pdf; Rede Rural Nacional — Portugal Lança Novo Plano de Ação para a Economia Circular 2025-2030; https://www.agroportal.pt/portugal-lanca-novo-plano-de-acao-para-a-economia-circular-2025-2030/
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